“As Falsas Memórias de Manoel Luz”

23/07/2018

O livro de Marlene Ferraz, psicóloga do Politécnico de Viana do Castelo é um dos 5 finalistas do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) 2017.

 

Os escritores Marlene Ferraz, H.G. Cancela, José Eduardo Agualusa, Carla Pais e Luís Cardoso são os finalistas do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE) 2017, foi anunciado esta quarta-feira. Das 72 obras analisadas apenas 5 foram finalistas, de onde se destaca “As Falsas Memórias de Manoel Luz”, de Marlene Ferraz.

 

O Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas) é um prémio literário atribuído pela APE desde 1982, com o objetivo de consagrar uma obra de ficção de autor português, publicada no ano anterior à atribuição do prémio. Com um valor pecuniário de 15 mil euros, é considerado o mais importante prémio nacional em Portugal.

 

Quem é Marlene Ferraz?

 

Marlene Ferraz, de 1979, tem os pés pousados em terras a norte. Com o ofício da psicologia, tem vindo a dedicar-se à escrita como um exercício de decomposição da experiência e alinhamento da desordem. Com um amor particular pelo conto, tem publicado Na Terra dos Homens (prémio Miguel Torga 2008), O Amargo das Laranjas (prémio Florêncio Terra 2008) e O Tempo do Senhor Blum e outros contos (prémio Afonso Duarte 2012). A Vida Inútil de José Homem (prémio Agustina Bessa-Luís 2012) revelou-se o primeiro romance e As Falsas Memórias de Manoel Luz a esperada continuidade.

 

SOBRE O LIVRO:

 

Com a morte do grande editor, Manoel Luz, também um homem dos livros, é confrontado com inesperados segredos e circunstâncias que o obrigam a suspeitar da (volátil) verdade e a recompor a sua narrativa de vida com tantos desacertos e acasos. Depois da revolução de abril, com um sopro transformador em território português, também o livreiro começa uma inevitável renovação na matéria mais íntima: o desejo maior de tornar-se uma figura de poder acaba por ser contestado pela vontade tão simples de ser um homem floreiro. O encontro inexplicável com a rapariga estrangeira, a filha imprevista com nome de flor bravia e o rapaz louco (e escrevedor de biografias) acompanham Manoel Luz nesta revelação (e aceitamento) da improvável realidade, mais deformada e duvidosa, mas compensada pela amplitude (indiscutível) da afeição.

 

É imprudente afirmar incondicionalmente a precisão da nossa memória: a biografia de um homem ou de um país pode ser um alinhamento de enganos e casualidades. Poderemos, afinal, contar verdadeiramente quem somos?

Marlene Ferraz aponta As Falsas Memórias de Manoel Luz como um exercício sobre a condição humana e o estado de vulnerabilidade inevitável entre uns e outros, apesar do esforço continuado para camuflarmos as nossas inseguranças e imperfeições com aparência, poder e ilusão de racionalidade. Ainda muito nos encantamos pelo poder e acabamos por nos posicionar numa escadaria social que reflete um mundo de aparências e capitalismos, com tantos disparates que acabam por deformar as biografias de cada um. É urgente reconstruirmos as nossas narrativas de vida para uma humanidade mais atenta e cuidadora: também Manoel Luz atravessa esta renovação de dentro, com o cenário de uma renovação por fora, a revolução de abril.

O ofício da psicologia também pede esta transparência, numa aceitação incondicional do outro (e de mim), com o sofrimento a assumir-se mais como matéria de apreciação e reinvenção para ensaiar novas formas de ver a realidade que incomoda (como se tivéssemos nas mãos um caleidoscópio: os tais caleidoscópios que usamos em criança e que tanto faltam quando somos maiores). Também neste novo livro, As Falsas Memórias de Manoel Luz, os apontamentos de infância, as fragilidades da condição humana, a complexidade das relações entre uns e outros, a bipolaridade (ligada) entre a emoção e a razão, o bem e o mal, o capitalismo e a sustentabilidade social, o amor e o medo, num processo continuado de queda e renovação. Assim as flores. E as borboletas. Até os livros. E os redutores mecânicos da infelicidade imposta, engenhos minuciosamente fabricados pelo rapaz com nome de elemento químico (Hélio) para reduzir o sofrimento e, num esforço de aplicabilidade e economia, transformar as partículas infelizes em matéria útil.

 

A Razão está claramente doente: desengane-se o homem que acredita na salvação pelo raciocínio.

O médico dos males da vista…

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

  • Facebook Social Icon
  • Twitter Social Icon
  • YouTube Social  Icon
Please reload

Please reload

Ponte da Barca - 4980-611
Portugal